terça-feira, 30 de junho de 2009

Conto Pequeno


Inicio de novo prelúdio de um amor que não existe...


Uma tempestade de sonhos de sombras onde o coração apenas morre...

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Apenas se ouvia a música da chuva contra o vidro do carro em que seguíamos, e o trabalhar pouco silencioso dos limpa pára-brisas a pedir o seu merecido descanso; existiam dois estados de tempo completamente distintos: se dentro do carro nos encontrávamos quentes, e animados; lá fora a fúria de uma noite de inverno imponha-se contra o metal do carro; além da chuva que se fazia sentir intensa, desenhavam-se no horizonte riscos luminosos e incertos causados pelos relâmpagos insistentes que rompiam o escuro do céu, sem dúvida era um espectáculo memorável e belo visto daquela distância e àquela distância. Por vezes, era cruel ter trabalhos que nos obrigavam a enfrentar temporais, ou autênticas catástrofes, mas era necessário alguém estar no local onde toda a notícia acontece! Nessa noite, tínhamos sido requisitados para cobrir um evento que se realizava de três em três anos, onde questões relacionadas com esoterismo e mundo real eram postas em causa, onde os entrevinientes eram normalmente pessoas relacionadas com as áreas de saúde, politica, justiça, segurança, educação, etc... Quando foi destacada a equipa para o trabalho e o meu nome estava entre os requisitados fiquei com a sensação que iria a mais uma ridícula convenção de loucos com ideias absurdas sobre extraterrestres e espíritos possuidores, já para não falar nos que falavam em ser descendentes de Conde Drácula; fiz aquele sorriso habitual de troça, mas teria que ir, nunca me negaria a nenhum trabalho por mais ridículo que o julgasse, ou absurdo que me parecesse. Porém fiquei surpreendido com todas as pessoas, algumas delas bastante reconhecidas mundialmente e pessoas que até ao presente sempre se mostraram credíveis, a ponto de não aceitar dogmas, ou qualquer tipo de lavagem cerebral. Mais surpreendido fiquei com o decorrer de tal mega convenção, e fascinado mesmo ao ponto de ter ficado com alguns contactos para uma possível investigação pessoal, ou um trabalho mais aprofundado sobre tais temas.
Falávamos sobre tais factos durante toda a viagem, cada um alucinado ao seu modo, uns mais surpreendidos ou enfeitiçados que outros, mas nenhum se mostrou indiferente ou distante, de alguma forma qualquer um de nós os quatro trouxe algo, ou algo em nós acordou...
Do nada, no meio da escuridão e das gotas grossas que se emborrachavam contra o vidro do carro, um vulto em forma de mancha branca aparece na berma direita da estrada; de inicio era-nos impossível distinguir do que se tratava, ouvia-se uma sinfonia estranha de batimentos cardíacos e o uivo do vento, como que alguém a pedir socorro; um misto de incredibilidade e curiosidade misturavam-se, depois de um dia a ouvir comentários sobre assuntos estranhos, ou menos usuais agora aquilo que não sabíamos muito bem o que chamar; parecia que estávamos num filme de terror fantástico, que dia mais absurdo! Lentamente o carro movia-se em direcção à tal mancha que ganhava forma a cada metro percorrido, tomando formas diferentes a cada momento, inicialmente mancha, depois nitidamente era o vulto de um corpo ou animal ou humano, e finalmente um corpo pequeno de um ser humano, para a uns três metros se distinguir na perfeição o corpo pequeno de uma mulher, dobrada sobre si, junto de uma árvore de largo tronco; vislumbrava-se os cabelos escorridos, pelo centro das costas, uma tez pálida, umas mãos pequenas e também elas pálidas, um corpo envolto numa espécie de vestido branco, totalmente encharcado, colando-se ao corpo do pequeno ser; frágil, perdida, e ao mesmo tempo mística, não sei se pelo ambiente se por tudo o que se passara naquele dia, parecia tirada de um conto de fadas, mas uma fada com assas partidas, molhadas, quebradas, doridas, simples e mágica.
Sem sabermos muito bem ainda o que iríamos fazer, sair ajudar parecia o mais sensato, mas ao mesmo tempo, nenhum de nós se movia, parecíamos quatro espantalhos a olhar algo, sem reacção, sem reagir, absortos, maravilhados, apreensivos, de súbito saímos do marasmo em que nos tínhamos colocado, ou melhor em que aquela mulher nos tinha colocado, saí do carro, não sei se por ser o mais curioso, ou o mais louco, sai para a chuva, sai para ajudar aquele ser que até então não me era nada, mas já me tinha feito viajar para um outro espaço paralelo ao nosso; a chuva não parava de cair, mas com menos intensidade da que embatia contra o vidro à minutos atrás, caminhei como se fosse salvar uma donzela da torre mais alta... Quando estava já a um metro de distancia, reparei nas feições que os faróis do carro me mostravam.
_ Precisas de ajuda Diogo? _ grita o Ricardo do carro. Meu fiel companheiro de vida, para além das correntes de sangue que nos ligavam, havia a eterna amizade e respeito, éramos inseparáveis desde alturas de berço.
_ Penso que não! Mas também não sei. Talvez um casaco! _ grito eu em forma de resposta. Só aos gritos por cima dos barulhos nos ouvimos.
_ Ok! Vou já ter contigo!
Tinha uma beleza diferente, agora ainda mais mística. Reparei que tinha o rosto contorcido, como se tivesse estado sob grande dor; fiquei apreensivo, nervoso, sem saber se era ou não capaz de ajudar aquela pessoa; à partida não mostrava nenhum dano, apenas os habituais quando se anda á chuva, umas olheiras profundas de quem não dorme, ou de quem chorou dias inteiros. Estava agarrada à árvore como se a sua vida depende-se das próprias raízes que alimentavam a mesma árvore; uma das mãos agarrava o ventre, enquanto que a outra abraçava o tronco. O seu respirar era lento, fazendo o corpo da mulher mover-se suavemente criando uma harmonia ilusória, de forma que parecia que o movimento era feito ao som de uma harpa; mas ali não existia nenhuma harpa que soava, nem mesmo sons magníficos a ecoar. Aquela mulher movia-se ao som de algo que a fizera estar ali presa a uma força da natureza, enfrentando outra força da mesma natureza, era possivelmente ao som de um desespero total, ou uma perda de consciência pura.
Encontrava-me encurralado entre as dúvidas se por um lado a queria tocar, pegar no seu corpo e protege-la, por outro, não queria que aquele momento cessasse, queria gravar tal imagem e reproduzi-la vezes sem conta... Apesar de tudo havia um lado romântico em tudo aquilo, todo o cenário era incrivelmente enigmático.
_ Está aqui. Toma! (Ricardo entregava-me um casaco, não acreditava no que os seus olhos lhe projectavam, boquiaberto, vacilou em dizer algo, que saiu como um pequeno sopro rouco). _ Está viva?
Acordando para a realidade, olho-a e olho para Ricardo depois, esboço um sorrisos, com um movimento de cabeça anuo com um sim. Sim, estava viva. Ou pelo menos, o seu respirar dizia que sim, porém colocava-se a questão que tipo de vida possuía a tal mulher que se ancorava a um tronco a pedir clemencia, ou socorro, a um ser que nunca lhe iria responder, nem lhe dar um ombro onde se apoiar, mas a realidade é que estava ali, numa súplica silenciosa. De joelhos no chão ensopando as Lewis novas compradas naquela loja com a Sofia, enfim, cheguei-me ao seu corpo imóvel para colocar o casaco por cima do seu corpo para depois o erguer nos meus braços e leva-la para dentro do carro de forma a que um médico a visse; só então pode vislumbrar uma mancha vermelha que se espalhava pela tela branca que era o vestido. Até então não me fora possível ver tal cor pois a sua mão esquerda, a mesma que segurava o seu ventre, escondia tal desenho uniforme; superficialmente não apresentava sinal algum de ferida, porém agora vendo o sangue que derramava, crescia em mim uma insegurança quanto ao procedimento que deveria ter: leva-la para o hospital ou chamar imediatamente a ambulância; uma vez que não sabia o motivo de tal sangramento. O que fazer com esta mulher que agora me parecia ainda mais frágil e indefesa, ali só a sangrar sem que viva alma lhe tenha prestado assistência, e eu e os meus companheiros estaríamos à altura de tal desafio? Nisto, a pobre criatura mexe-se fazendo um som parecido a de um animal ferido. Os meus olhos fixavam-na, um carro que passava por nós iluminou-lhe o rosto, mostrando todos os contornos, o formato do rosto em forma de coração, os olhos enormes ainda que fechados, uns lábios carnudos e vermelhos que se assemelhavam a um morango delicioso, uma pele fina e de cor de porcelana, uma beleza adormecida, e apesar das olheiras e do estado em que estava era sem dúvida uma das mulheres mais feminina que alguma vez vira na minha vida, dou por mim a fantasiar com uma estranha. De súbito sem saber de onde veio tal memória, senti que aqueles lábios já foram alvo dos meus, que aquele corpo num passado não muito longínquo já se tivera fundido na minha pele, era uma mistura de sensações as que estava a sentir, uma volta no estômago sem conseguir explicar a razão para tal sentimento. Nisto, a estranha que já me parecia familiar, abre os olhos, e olha-me de uma forma ternurenta, mas como se todo o seu destino tivesse sido por mérito de alguém ou de alguma coisa apagado, olha-me intensamente quase suplicando, algo que não entendo.
_ Sarah! _ A minha voz ganha um tom fora do meu tom normal. Ali, à minha frente a mulher que um dia amei, como pode não a reconhecer, a mulher que durante três anos não me saia da cabeça, a mulher por quem nutri um amor estranhamente correspondido, e que por motivos também eles estranhos nunca, foi um amor possível. Estava ali, caída, abandonada, perdida, com uma palidez mortal, mas com a mesma ternura que sempre encontrei em cada manhã em que se espreguiçava nos meus braços e me dizia as coisas mais belas que um homem pode ouvir, e por vezes nem uma única palavra dizia, apenas com o olhar, e que olhar. Agora estava ali, desfeita, longe, a minha Sarah! A mulher capaz de tudo e capaz de me levar a fazer tudo! E no entanto não funcionou. Estava ali no meu mundo novamente.
O seu corpo treme, as lágrimas caiem, o seu rosto desfigura-se no pranto. Incrédulo, quem lhe fizera mal? Mataria o bastardo, mataria o assassino, por ela tudo era permitido.
_ Sarah! Calma!

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Olha-me nos olhos, com os seus cheios de uma tempestade maior do que aquela que sobre nós existe. Agarrou-se ao meu pescoço, como se eu fosse a sua salvação, as lágrimas mantêm o seu ritmo; sem parar, abraço-a fortemente, na tentativa de a acalmar, mas nada parece fazer Sarah regressar ao Mundo; apenas dor, sinto-a com uma dor moribunda, uma dor que só mesmo no leito da morte se entende, ou se este passar perto. Tenta falar, mas apenas saiem tentativas de palavras, nada mais. Sons que mais se assemelham a gemeres de animais. A cada segundo que passa sinto-me cada vez mais impotente.
_ Perdi-o!









(agradeço a sensibilidade de nada ser copiado, uma vez que se trata de um texto original, bem como qualquer que se encontre no blog, por gentileza, desde já agradeço*)

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