sexta-feira, 29 de outubro de 2010

As ruas de um Algés

Passo por tudo hoje, sem ver o brilho
Até que os meus olhos se elevam do chão
e vejo o que não vejo
Passo pela mesma rua e tudo é igual
O mesmo chão, cheiro, rosto de alma descuidada
Rostos envelhecidos pelo monstro do tempo
Seres pesados,
carregados de males e bens que ninguém vê
Passo por tudo, e nada vejo
Olhos pregados ao chão
De medo, não dos outros mas de mim
DO que possa eu ver neles e em mim
São cinza as almas
que observo a cada dia de calçada
Pobres e ricos de vida sem saberem quem são
Vidas mundanas terríveis de hábitos incríveis
As que por aqui passam
Mentes já deslocadas daqui
Num outro Mundo que não este
Passo todos os dias com medo
Dos meus olhos neles
Dos segredos nos outros olhos que os meus possam ver
Passo e vejo que mesmo que passa mil anos
Nunca verei a beleza que vejo ao longe ali...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

...

Como fica vazio o espaço sem ti...
Tudo morre...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A Cor da Toalha

Como dizias_ "tudo aqui... são as tuas mãos nas minhas, assim juntas.".
Olhava-te nos olhos como quem vê o eterno por do sol no horizonte, sorria descaradamente, sabendo-te um beijo pronto a ser-me entregue na pele.
Estariam ainda juntas, hoje? Se o próprio destino não tivesse chegado cedo demais ao nosso cais!
Não esqueço, como era tudo tão quente, calmo, acolhedor e perfeito, até que tudo mudou assim de uma onda para outra...
Os graus de areia irregulares entre si, instalavam-e nos nossos pés, era como esfuliar o corpo de forma natural e barata, de vez a vez vinha um vento de norte para nos dizer que cedo viria o arrefecimento normal da noite, mas que importava, era refrescante, caminhávamos durante uma hora ou duas por aquele mesmo areal que nos beijava.
Não importava a bandeira, as pessoas, as toalhas, estávamos ali para respirar um pouco do iodo e da plenitude. Deveria ter importado a cor, naquele dia deveria ter importado a cor...
Lembras-te daquela família do menino de sardas, era lindo, tinha um rosto maroto, deixa ver se lembro, tinha, uns cabelos do mais escuro que alguma vez vi, um pele branca, agora pigmentada pelo sol apresentando já a cor de uma lagosta no tacho, uns olhos enormes verdes que se escondiam por vezes por detrás daquelas enormes pestanas negras, uns lábios carnudos vermelhos com uma língua marota num dos cantos enquanto fazia os eu castelo de areia... Brincava tão distraído e tão atento à sua obra de arte. Os seus familiares na toalha falavam entre si, só me recordo da toalha vermelha, impressionou-me a cor fazia um contraste abismal no creme da areia.
Lembro, como os teus dedos prendiam os meus e ambos os olhos se encontravam, até finalizarmos mais um e outro beijo. Lembras-te? Sei que também pensavas no mesmo, num futuro também nosso com crianças, assim que brincassem com areia e construíssem castelos e sonhos, sei que também tu sonhavas com esse sonho... Algo falhou! A cor da toalha...
Adorava o farol que o teu primo nos emprestou durante aquele nosso primeiro ano, e depois nos seguintes, uma vez por ano lá estávamos a passar férias solitários em duo, era como passar uma nova Lua de Mel, amava o que passei a odiar, o bater das ondas, o som do vento nas persianas, o cantar das gaivotas o ecoar dos barcos, até que partis-te...
Deveríamos ter tido atenção à cor! Não sei quando foi, nem como, sei que aconteceu e nada mais poderá ser feito, não te culpo...
A criança brincava com o seu balde azul e a pá verde, construindo o castelo com conchas, já tinha formas, já tinha algo de castelo, precisava do que mais? Porque precisamos sempre de mais? De mais? Estava tudo como deveria estar naquele final de tarde, porque haveria de querer mais? Creio que os maiores erros são aqueles em que nunca nos contentamos com nada, e escolhemos sempre algo mais... Para quê?
Ninguém pensou, ninguém viu, ninguém travou o castelo de crescer...
Estava um dia lindo de bandeira amarela, a criança caminhava convicta que precisava de mais um balde de agua para o seu castelo, caminhou até à beira e recolheu o seu meio litro.
Ainda me lembro, pernitas pequenas a enterrarem-se na areia molhada, a enterrarem-se, descontracção de todos... Descuido de todos... A onda veio e não esperou, levou o corpo pequeno de um menino que sonhava apenas com um castelo enorme de areia.
Desculpa, saltei sem pensar, sem pensar, saltei... Desculpa!
Procurei o menino, sei que também vieste, sem que também saltas-te, sei que também tentas-te salvar-lhe a vida...
Tudo era mais forte, toquei no corpo dele ainda mole, tentei puxar para cima, enquanto o meu corpo ia para baixo pela pressão da força da corrente, senti uma dor cortante um rasgo, ali as rochas são tantas, depois tudo o que vi sobre mim era uma mancha que crescia, depois senti a minha cabeça pesada, o meu corpo mais pesado, a vontade de ter ar, e de te ter, vi-te pelo passar da onda, estavas ali, depois amor, já nada vi a não ser um negro, acho que morri.
Nunca mais ouvi dizer_ "tudo aqui... são as tuas mãos nas minhas, assim juntas".
Queria eu o nosso tudo de novo mas aqui já poucas são as mãos quentes...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Vinho

Rodavam os dedos
Sobre a linha de cristal
Dançavam sob si, numa valsa desigual
Gritava o som agudo do vinho nas pontas
Rodavam os dedos
No copo de vinho...

Esse tal




Que esforço é esse, de ter beijar a pele queimando os lábios.
Que sede de ti, corre pelas minhas veias e tu em silêncio ficas.
Que caminho incerto de pegadas apagadas.
É um tal de amor, um parasita, um violador.
São as imagens constantes que não vejo que me seguem.
Sem ti, o chão não faz qualquer sentido existir.
Porque, sem ti, de nada me serve caminhar.
É esse tal, do amor, esse corrupto bandido, esse traste, um verme...
Orfão, como eu o sou sem ti.
Melancolicamente, nego.
A ti e a quem for necessário.
Não, não amarei, tal ser.
Mesmo que mentindo eu esteja...
É esse tal de amor, esse ladrão de almas...
Que em mim me persegue, seguindo eu com ele e com ele sem ti.
É esse tal...

sábado, 23 de outubro de 2010

Sem o Respirar

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlaçemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente.
E sem desassossegos grandes.



Fernando Pessoa

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Decadente...

Como os dias
Decadente a alma
Sem sombra quando caminha
Desarmada em si mas em linha
Decadente no terno silêncio
Sopro de um ar abafado
Corpo inerte ao movimento
Morta a sede da verdade
Decadente num inferno de paraíso fingido
Rotas as esperanças vencidas pelo destino
Pobre de ar
Caminhante errante de uma pegada pequena
Pequena, languidez marcante
Atroz sentimento nu de vida
Decadente chama
Fusão entre as cores da bruma e a bruma em si
Pobre caminhante nu
De roubado destino
Pobre decadente nulo de vida que corre sombrio...
Já tudo o que há morreu no vazio.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A inutilidade dos papeis

Há alturas em que é necessário fazer pequenas arrumações, banais e simples, quer seja sentados numa mesa a pesquisar o que de pouco interessante existe nas nossas carteiras, quantos papeis guardamos religiosamente, que no fundo não servem para nada, mais existem, estão lá, olham-nos observam cada movimento nosso, cada abrir e fechar de fechos, fivelas e afins, e permanecem...
Consigo entender o nervosismo quando todos saltam de dentro das bolsas onde são colocados, já sabem vai ser o fim, podem até sobrar alguns, porque sobram sempre, mas vai haver uma chacina mortal para tais pedaços semi-apagados do uso, a vida desses papeis fica por minutos contrabalacada, sufoco para eles, alivio para os que eles carregam.
Hoje, aqui, lá foi mais uns quantos cortados em mil pedaços para o lixo. Reparo na quantidade que são, tenho centenas deles, mesmo centenas, sem mudar um número, centenas, deparo que na mesma semana fui duas vezes ao mesmo posto de combustível, e pergunto, mas conduzo assim tanto? Existirá algum motivo para ir aquele posto e não a outro, é que nem fica no caminho, nem há um moço giro a servir, ora será que o gasóleo é melhor ali do que nos outros lados? Pois nem eu sei, mas os talões confirmam, confirmam ainda que os papeis foram mudados, não são os mesmos, máquinas diferentes ou então uma nova mudança de sistema, a qualidade dos papeis também altera, antes mais largo mas mais fino, agora mais fino mas mais grosso, parece um melhor talão, melhor ao tacto. A verdade, nem sei porque reparo nestas coisas.
Há talões por exemplo que deveriam ser proibidos, tudo neles desaparece, e depois quando colocarmos no IRS, alguma coisa se vê? Nada, absolutamente, nada, será já compilo, uma forma de assim ser impossível ao estado aceitar como despesa? Lanço aqui assim sem querer ferir ninguém a polémica, claro que fica para mim tamanha dúvida.
Quando vamos às compras, saem normalmente dois talões enormes, um para o vendedor outro para o cliente, e às vezes ainda sai um outro que nos indica onde estamos, com logos das lojas, ah há, servirá como cartão de visita, se sim paço inteligente, poupança, boa, mas se formos sempre ao mesmo local fazer compras será desperdício, não?
Afinal, porque me estou aqui a preocupar com estas coisas? Porque, no final quando todos os pedaços de papel estão rasgados, questiono não estou eu e todos nós a gastar demais em papel, a inutilizar para nada? E depois penso que as árvores abatidas poderiam ter sido evitadas, porque na realidade apenas os papeis importantes ficam e esses são uma percentagem de mais ou menos 20% do total gasto, não podemos evitar tais coisas? Como?

Fotografia Workshop

Aos que amam fotografia e gostariam de saber um pouco mais...

http://vitorneno.blogspot.com/?ref=nf

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A crise e a falta da crise

Jogos de poder...
Há uma crise social de valores... Valores mais futeis que se elevam, e nós cruzámos os braços. Sim um bom economista, pessoas de gestão, mas com prática no assunto... IVA, cortes, substituições por máquinas, não pode nem deve ser as soluções a uma crise que apenas aumenta...
A solução está na organização de todo o dinheiro, no que realmente é importante. Parar gastos desnecessários (pc para crianças, e-oportunidades, carros de luxo, jantares, ajudas a países quando o proprio nao tem, aeroportos, tgv, estádios, etc...) onde estão as prioridades???
Onde anda um partido a-politico com garras para fazer e melhorar, sem ser denegrir a vida e as condições da mesma... Onde andamos todos, e porque andamos todos a abanar a cabeça em vez de lutar por algo melhor mais justo mais igual para todos..
Este senhor tem partido?
O País ficará nu.

sábado, 2 de outubro de 2010

Perder um filho

Contra-natura
É contra o ser perder,
Desde um jogo banal
A um jogo de vida
Luto que de dor se faz
...De lágrimas se recorda
Contra-natura
Para pai, mãe, irmãos, irmãs, avôs, avós, tios, tias
Amigos, amigas, conhecidos, desconhecidos
É contra-natura
A perda sem a luta.
É um naufrágio, onde nem uma boia de salvamento foi lançada
é um embalar de ondas
das quais não se consegue molhar um remo
para se salvar
é o abalar da consciencia
o quebrar de um espelho
é o queimar a pele
pela quantidade de choro que corre
é a perda do eu do outro
e da vontade
uma perda total que mata de saudade
um continuar ausente de ar
é o já não saber ser
sem quem parte
é ser dor, luto, até rancor
é o aceitar que não chega
e uma luta de fantasma ausente
é o amar numa distância tão longa
que de tão longa apenas se sabe que não volta...
uma continuação às cegas
uma mágoa sem tréguas...
uma espera, uma espera, uma espera
por quem já não esperamos volta
resta a saudade em todos os anos, meses, dias, horas, minutos, segundos
e até nos miléssimos
quem parte, faz tanta falta...